O balonismo como prática humana tem cerca de dois mil anos de história. No Brasil, ele nasce três séculos antes do que a maioria das pessoas imagina — e retorna, como esporte de precisão, em 1970. Este texto conta essa história: da primeira tentativa de voo de um brasileiro no século XVIII à consolidação do Brasil como um dos mercados mais ativos do balonismo mundial, com Boituva no centro do ecossistema paulista e Torres na liderança institucional do esporte.
Bartolomeu de Gusmão: a primeira tentativa em 1709
A primeira tentativa documentada de voo com um engenho de ar quente no Brasil — e uma das primeiras no mundo inteiro — foi realizada em 1709 pelo padre brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão. Em demonstração feita na Câmara das Índias, em Lisboa, na presença do rei Dom João V de Portugal, Gusmão fez subir uma pequena esfera de papel propelida pelo ar aquecido de uma vela — apelidada pela corte de “passarola”.
A demonstração aconteceu 74 anos antes do voo dos irmãos Montgolfier na França, que é tradicionalmente creditado como o primeiro balonismo moderno. Gusmão é, portanto, reconhecido historicamente como um dos pioneiros da aeronáutica mundial — e o primeiro brasileiro a contribuir para a história do voo tripulado.
1970: Victorio Truffi e o retorno moderno em Araraquara
Depois do gesto pioneiro de Gusmão, o balonismo como prática organizada levou quase três séculos para retornar ao Brasil. O retorno moderno aconteceu em 1970, nas mãos de Victorio Truffi, que realizou o primeiro voo documentado de balão de ar quente no país na cidade de Araraquara, São Paulo.
O voo de Truffi não foi um evento isolado. Plantou a semente de um circuito informal de balonismo que, ao longo dos anos 1970 e 1980, descobriu que o interior paulista tinha condições meteorológicas excepcionais para a modalidade: inversões térmicas estáveis, umidade baixa no outono e inverno, ventos previsíveis pela manhã. Essa combinação, desconhecida pela maioria dos brasileiros, ia se revelar decisiva décadas depois.
Anos 1980: a institucionalização do esporte
O salto institucional vem nos anos 1980. Em 1987, é estruturada a Fundação Associação Brasileira de Balonismo, que se tornaria a atual Confederação Brasileira de Balonismo (CBB). No ano seguinte, em 1988, acontece o 1º Campeonato Brasileiro de Balonismo, vencido por Rubens Kalousdian — marco fundador da competição oficial que, em 2025, chegaria à sua 38ª edição.
A estruturação formal da CBB coincidiu com a entrada de gerações que atravessariam décadas: Fábio Passos, que conquistaria o título brasileiro pela primeira vez em 1993 e se tornaria pentacampeão; a família Kalousdian, que viria a dominar o ranking por anos; e a primeira geração de pilotos paulistas que sustentariam o calendário estadual pelos anos 2000 em diante.
Os campeões brasileiros desde 1988: uma genealogia
Em 38 edições do Campeonato Brasileiro de Balonismo, 16 pilotos venceram o título nacional. A lista abaixo é a espinha dorsal da memória competitiva do esporte no Brasil:
- Rubens Rosdon Kalousdian — octacampeão (1988, 1990, 1995, 1996, 2000, 2003, 2012 e 2019). O maior campeão da história.
- Fábio da Silva Passos — pentacampeão (1993, 1998, 1999, 2002 e 2005)
- Luis Silvestre — tetracampeão (2011, 2013, 2014 e 2018)
- Lupércio Barros Lima — tricampeão (2007, 2008 e 2009)
- Sacha Haim — tricampeão (1994, 1997 e 2004)
- Ronaldo Morales — bicampeão (2016 e 2017)
- Rui Kalousdian — bicampeão (1992 e 2010)
- Marcos Paulo “Paulinho” da Silva — bicampeão (2015 e 2020)
- Fábio Pascoalino Passos — bicampeão (2021 em Torres/RS e 2023 em Boituva). Também bicampeão brasileiro na categoria Juniores (2018 e 2019).
- Markus Dikran Kalousdian — campeão em 2022 (Boituva)
- Caio Avelino — campeão em 2025, representante do Brasil no Mundial FAI 2026 em Krosno
- João Vitor Justo — campeão em 2024 (Torres/RS)
- Eduardo Mello — campeão em 2006
- Ricardo de Almeida — campeão em 2001
- Bruno Schwartz — campeão em 1991
- Leonel do Nascimento Brites — campeão em 1989
A sobreposição entre nomes paulistas e brasileiros é notavelmente alta. A maioria dos campeões brasileiros integra ou integrou o ranking da Federação Paulista de Balonismo em algum momento — sinal do peso de São Paulo na construção do esporte no país.
Anos 2000: nasce Boituva, a capital do balonismo brasileiro
Embora os primeiros voos tenham acontecido em Araraquara, o município de Boituva (SP) é que viria a se tornar o epicentro do balonismo brasileiro. O marco formal é a fundação do Clube de Balonismo de Boituva em 2000, que estruturou a atividade no município — até então conhecido exclusivamente pelo paraquedismo, praticado na cidade desde 1971.
Boituva reúne hoje 25 operadoras regulamentadas pela ANAC, mais de 40 balões ativos, 40 pilotos e 161 equipes de solo credenciadas — o maior ecossistema aéreo esportivo do Brasil. A cidade também abriga o único aeroporto brasileiro dedicado exclusivamente a esportes aéreos não-motorizados. Para entender a construção desse polo, veja Como Boituva virou a capital brasileira do balonismo.
Anos 2010-2020: consolidação do esporte
A década de 2010 consolidou Boituva como sede recorrente do Campeonato Brasileiro e do calendário regular da Confederação Brasileira de Balonismo. Paralelamente, Torres (RS) emergiu como a outra grande referência nacional — oficialmente reconhecida como Capital Nacional do Balonismo pela Lei Federal 14.808, de 11 de janeiro de 2024. O Festival Internacional de Balonismo de Torres, em sua 36ª edição em 2026, é o maior evento da modalidade na América Latina.
No mesmo período, surgiu uma nova geração de pilotos paulistas que hoje dominam o ranking brasileiro — Fábio Pascoalino Passos (bicampeão brasileiro em 2021 e 2023, também conhecido como Fabinho), Markus Kalousdian (campeão brasileiro 2022), Marcos Paulo “Paulinho” (bicampeão 2015 e 2020), Warley Macedo e Caio Avelino (campeão brasileiro de 2025) — perfilados em Os pilotos paulistas que levam o Brasil ao mundo.
Anos 2020: profissionalização e regulação ANAC
A década de 2020 traz uma nova fase: a profissionalização do setor e a regulamentação por parte da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). O balonismo brasileiro convive hoje com três regulamentações paralelas: o RBAC 103 para a prática aerodesportiva e recreativa; o RBAC 91 para competição oficial homologada pela FAI; e a Resolução ANAC 659/2022 para a exploração comercial como Serviço Aéreo Especializado (SAE).
Em outubro de 2025, a ANAC aprovou uma nova resolução que reorganiza a exploração do balonismo comercial em três fases, com transição completa prevista para 2028. É o momento em que o setor deixa de ser improviso institucional e passa a operar sob padrões internacionais de segurança.
A FPB no contexto histórico
A Federação Paulista de Balonismo é a entidade máxima do balonismo no estado de São Paulo. Filiada à Confederação Brasileira de Balonismo (CBB) e alinhada à Fédération Aéronautique Internationale (FAI), a FPB organiza o calendário competitivo estadual, faz a ponte institucional entre pilotos filiados e prefeituras interessadas em sediar etapas, e mantém o ranking paulista que alimenta a classificação nacional.
De Bartolomeu de Gusmão em 1709 a Caio Avelino, Fábio Pascoalino Passos, Markus Kalousdian e João Vitor Justo em Krosno em 2026 — o balonismo brasileiro é uma história de três séculos, feita de pioneiros, pilotos, federações e cidades-sede que construíram um dos esportes aéreos mais ativos do mundo. A próxima linha dessa história depende das cidades que se somarem ao ecossistema e dos pilotos que entrarem no ranking. A FPB é a porta para os dois.
Texto editorial da Federação Paulista de Balonismo. Para aprofundar, veja o Guia Definitivo do Balonismo Competitivo no Brasil, o Calendário 2026 e nosso post sobre Por que sua cidade deveria sediar um campeonato de balonismo.

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